O jardim da Fundação Gulbenkian é um lugar de culto. Começa por ser um jardim magnificamente desenhado pelo Arquitecto Ribeiro Telles - de algum modo inspirado numa ilha paradisíaca conforme o autor, com uma flora diversificada com fortes traços do sul, para se tornar num lugar cheio de histórias de espectáculos, de lições públicas, por onde passam visitantes cujos maiores propósitos são lúdicos, de encontros ou de leituras prazenteiras.
No Verão, as sombras das árvores protegem os passeantes do calor tórrido que em certos dias se faz sentir, que indicia que estamos no Sul,e, a este propósito, desde 2006, têm sido instalados toldos que, no seu conjunto, perfazem um caminho que começou por ser um passeio de sombra que protegia do sol abrasador e, posteriormente, esta função foi associada à função de suporte de telas impressas.
Este ano este passeio terá inscrito, ao longo dos seus 80 metros, poemas de autores da mais variada região cultural, clássicos, modernos e contemporâneos.
Estrutura dos Toldos – Arquitecta Teresa Nunes da Ponte
Selecção dos poemas – António Pinto Ribeiro
Coordenação técnica - Jorge Lopes
Poemas
1. Safo
Abrasas-me
Poemas e Fragmentos de Safo
Tradução de Eugénio de Andrade
2. Léopold Senghor
O furacão
Tradução de Rute Costa
Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache, Quadriche/Presses Universitaires de France
3. Jorge Luis Borges
Manuscrito achado num livro de Joseph Conrad
Tradução de Fernando Pinto do Amaral
Teorema
4. Carlos Drummond de Andrade
Sombra das moças em Flor
Poesia Completa, Editora Nova Aguilar
5. Octávio Paz
As armas do Verão
Tradução de Luís Pignatelli
Antologia Poética, Dom Quixote
6. Cristina Ali Farah
Sem título
Tradução de Livia Apa
7. Juan Gelman
Mundo
Tradução de Alberto Piris Guerra
Interrupciones 2, Seix Barral
8. William Wordsworth
Esplendor na relva
Tradução de Catarina Belo
9. Antonio Cicero
Guardar
Guardar, Record
10. Cesare Pavese
Paisagem VIII
Tradução de Carlos Leite
Trabalhar Cansa, Livros Cotovia
11. Manoel de Barros
Árvore
Ensaios Fotográficos, Record
12. Pedro Tamen
Discurso a Helena Fourment
Retábulo das Matérias
Gótica
13. T. S. Eliot
O Boston Evening Transcript
Tradução de Jorge de Sena
14. Wole Soyinka
Estação
Tradução de José Alberto Oliveira
Rosa do Mundo, Assírio e Alvim
15. Salah `Abdal-Sabur
Fêmea
Tradução de Adalberto Alves
Rosa do Mundo, Assírio e Alvim
16. Joyce Mansour
Sem título
Tradução anónima
17. Emílio Ballagas
Vento da luz de Junho
Tradução de José Bento
Rosa do Mundo, Assírio e Alvim
18. Adélia Prado
Fatal
Bagagem, Livros Cotovia
19. José Craveirinha
Trouxa de 8 couves
20. Antjie Krog
Composto por /HAN#KASSO(-); convertido num poema por Antjie Krog
O que dizem as estrelas
Tradução de Catarina Belo
21. Ronelda Kamfer
Bipolarhoney
Tradução de Catarina Belo
22. Sophia de Mello Breyner Andresen
Meio da Vida
Moraes Editores
23. Philip Larkin
Água
Tradução de Rui Carvalho Homem
Cristina Ali Farah
Sem título
Espera, deixa-me atravessar o limiar de olhos fechados
a cadeira do rei está vazia, a luva mostra a investidura
o poder está desconexo
Vendas e desvendas, olhar oblíquo, ubíquo
É tão fácil, porém, enganar a visão
(escondes o braço imputado)
amestra os confins do vazio
Cavei a terra com as mãos nuas procurando o segredo do que fica
de três mil virgens de terracota,
veias de água, ninhos e túmulos por baixo de camadas de areia e pele
Os meus dedos desenham fragmentos e espelhos,
cancelados na memória
Volto a subir as pulsações do tempo,
minha mãe, a mãe da minha mãe, matrioskas perfuradas
Dêem-me uma vela para que eu possa olhar dentro
E recompor o mapa do amor nos corpos desconsagrados
(Tradução: Livia Apa)
Antjie Krog
Composto por /HAN#KASSO(-); convertido num poema por Antjie Krog
O que dizem as estelas
(fragmento)
as estrelas levam-nos o coração
porque as estrelas não têm o mínimo desejo
de nos devorar!
as estrelas trocam-nos o coração pelo coração de
uma estrela
as estrelas levam-nos o coração e dão-nos
o coração de uma estrela
e nunca mais teremos fome
porque as estrelas dizem: ‘Tsau! Tsau!’
e os bosquímanos dizem que as estrelas amaldiçoam
os olhos do antílope
as estrelas dizem: ‘tsau’, dizem: ‘Tsau! Tsau!’
amaldiçoam os olhos do antílope
cresci a ouvir as estrelas
as estrelas dizem: ‘Tsau! Tsau!’
é sempre Verão quando ouvimos as estrelas dizer Tsau
(Tradução: Catarina Belo)
Sophia de Mello Breyner Andresen
Meio da Vida
Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra
A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida





